Este post foi escrito pelo Pedro, nosso Convidado Especial.
Quando Crick e Watson desvendaram a estrutura do DNA - a molécula onde está contido o “segredo” da vida – e publicaram seu feito na Nature em um artigo de apenas uma página (sim, na época essa descoberta recebeu apenas uma página na Nature. Não se tinha exata noção da importância disso), provavelmente nem eles imaginaram que algumas décadas depois o DNA seria milhares de vezes citado todos os dias. Que seria citado desde por cientistas que pesquisam terapias contra o câncer, passando por mulheres especializadas em fazer filhos com jogadores de futebol, até por jornalistas de revistas femininas.
Evidentemente, a indústria cosmética não ficaria fora disso. Em 1982, portanto, a Estée Lauder lançou o Advanced Night Repair, um serum para ser usado à noite, antes do tratamento habitual; e que promete melhorar a aparência da pele envelhecida por danos causados no DNA de suas células. O Advanced Night Repair tem uma textura leve e, de acordo com a empresa, é indicado para pessoas de praticamente todas as idades. De lá para cá o produto já foi reformulado algumas vezes, mas suas características e promessas continuam parecidas.

De acordo com um dos cientistas envolvidos na criação do produto, Dr. Daniel Maes, PhD em Química Nuclear e com numerosas publicações científicas na área de cosméticos e pele:
“There’s a big advantage to having DNA repair occur at night. During the day, the DNA is being called upon to function and it’s also absorbing environmental damage, particularly from the sunlight. At night it’s time for rest. It’s when nutrients are most available; it’s when the DNA is not competing with other functions; so DNA repair is best accomplished at night.”
Dr. Daniel Yarosh, outra cientista da Estée Lauder e também PhD (esse em Biologia Molecular) fez mais alguns comentários sobre o produto. Sobre a impaciência dos consumidores que querem resultados rápidos, ele declarou o seguinte:
“Part of our challenge is that, however much consumers want it to, biology doesn’t work in an hour. So we need to give the consumer immediate satisfaction from other elements – the right snap or click from the packaging; the right colour and texture of the formula; a temporary brightening or tightening effect – so that they will stick with the product long enough to see the real benefits, for example, DNA repair, for themselves.”
O que ele quer dizer com isso é que a curto prazo o produto poderá oferecer uma textura agradável, uma pele mais macia e com uma efêmera sensação de melhora. Os outros benefícios que o produto talvez ofereça, no entanto, só aparecerão a longo prazo (meses ou até anos).
Mais algumas coisas interessantes que esse cientista da Estée Lauder declarou:
“In our lab, we have never given up on the idea of reversing wrinkles. We have leads and ideas, and continue to work on new technologies. I can’t tell you I can turn a 90-year old woman into a 30-year old woman today, but that doesn’t mean we aren’t trying or that it might never happen. It’s still a goal that we won’t give up on.”
Na minha opinião, ainda que o Advanced Night Repair – e seus similares – seja um excelente produto (para mais detalhes sugiro ler este artigo: http://tinyurl.com/y9hnyzr ), os resultados oferecidos são incertos. Não há, por exemplo, nenhum estudo mostrando que se o produto fosse usado diriamente por X anos ele previneria uma quantidade Y de rugas.
A despeito dessas incertezas, a cada minuto são vendidos no mundo três frascos desse ícone da Estée Lauder. Totalmente off post, mas as vendas do Advanced Night Repair ajudam a explicar o porquê Ronald Lauder, um dos donos da Estée Lauder, foi praticamente o único homem do mundo que teve 135 milhões de dólares para pagar pelo Retrato de Adele Bloch-Bauer I, de Klimt:

Felizmente ele não colocou a obra em sua casa, mas em uma galeria de arte em NYC onde qualquer pessoa pode ver.
Voltemos ao Advanced Night Repair: ele é tão bem vendido que recentemente a L’oréal resolveu lançar um produto com proposta parecida: o Lancôme Génifique. Do ponto de vista de marketing e finanças, o Génifique também é um sucesso. Em apenas 18 meses foram vendidos aproximadamente 3 milhões de frascos. E dados mostraram que em novembro de 2010 era vendido 1 frasco de Génifique a cada 4 segundos no mundo.
A L’oréal afirma que antes de lançar o Génifique pesquisou por 10 anos na área de genômica (estudo do genoma de um organismo) e proteômica (estudo das proteínas codificadas pelos genes, um campo que surgiu depois da genômica – como consequência do Projeto Genoma Humano) .
Além disso, afirma que descobriu 400 genes e 700 proteínas responsáveis pela “juventude da pele”:
http://www.youtube.com/watch?v=yfgxIJ0MNtc
Em nenhum momento a L’oréal está mentindo. Estas pesquisas realmente foram feitas e divulgadas. Até porque L’oréal conta com mais de 3000 cientistas em seus laboratórios e investe anualmente mais de 1 bilhão de reais só em pesquisa e desenvolvimento (isso é mais do que muito laboratórios farmacêuticos investem): http://www.loreal.com/_en/_ww/index.aspx?direct1=00004&direct2=00004/00009&direct3=00004/00009/00001
Porém, isso não significa, necessariamente, que o Génifique é capaz de realmente atuar sobre os genes e as proteínas estudas pela L’oréal. Para efeito de comparação e para vocês entenderem melhor o que quero dizer, cito um exemplo: a Dra. Mayana Zatz, da USP, realiza pesquisas com células-tronco embrionárias e publica artigos científicos muito importantes na área. Nem por isso já existem disponíveis com células-tronco embrionárias. Repito: fato de L’oréal ter estudado os genes que estão ligados ao envelhecimento da pele, não significa, necessariamente, que ela também desenvolveu alguma tecnologia capaz de reparar genes danificados.
Três artigos muito bons sobre o Génifique estão aqui:
http://saladamedica.wordpress.com/?s=genifique
http://www.futurederm.com/2010/02/02/product-review-lancome-genifique-youth-activating-concentrate/
http://bulledebeaute.wordpress.com/2009/05/01/cosmeticos-com-dna/
Como vocês podem notar, não são resenhas animadoras.
Aqui no Brasil, provavelmente estimulada pelo grande sucesso comercial do Génifique, a nacional Dermage lançou o Improve DNA Repair.

A parte em que o fabricante alega que o produto é capaz de reparar o DNA da pele não me seduz. Afinal, assim como é o caso do Advanced Night Repair e do Génifique, os estudos mostrando que o produto atuaria sobre o DNA das células da pele foram feitos in vitro. Estudos in vitro são estudos feitos em modelos artificiais, e não em animais ou seres humanos. A pele é um orgão muito mais complexo do que células cultivadas em uma placa de laboratório. Sendo assim, um estudo in vitro até é interessante como “ponto de partida”, mas por si só não é capaz de provar que in vivo o produto atuará da mesma forma como atuou in vitro. Como seria bom se as coisas fossem tão simples. Um laboratório de medicamentos, por exemplo, não precisaria testar em animais e em seres humanos antes de colocar um medicamento novo no mercado, bastaria o laboratório realizar testes in vitro. Aliás, é por esse motivo que empresas transparentes, como Shiseido e Procter & Gamble, admitem publicamente que realizam testes em animais quando não há alternativas. Pode ser que realmente o produto atue in vivo da mesma forma que atua in vitro; mas pode ser que não. Há muitas incertezas em relação a isso.
No entanto, ainda que existam incertezas, considero o Dermage Improve DNA Repair um produto excelente. Mesmo que, talvez, ele não seja capaz de fazer coisas como “reparar o DNA” in vivo, ele tem derivado de vitamina C e retinol. O uso de retinol em cosméticos é suportado por evidências científicas. Quando formulado de modo apropriado, realmente pode oferecer vários benefícios à pele. Recomendo a leitura do seguinte artigo sobre o uso de retinol em cosméticos:
http://rlbatesmd.blogspot.com/2010/04/evidence-or-lack-thereof-behind.html
E sobre o derivado de vitamina C que ele contém, chamado ascorbyl glucoside, recomendo a leitura deste artigo:
http://www.futurederm.com/2007/12/19/spotlight-on-ascorbyl-glucoside/
http://www.futurederm.com/2008/02/23/update-on-ascorbyl-glucoside/
Sobre a textura, posso dizer que é leve e deixa a pele imediatamente mais macia. Levemente pegajosa nos primeiros instantes, mas não chega a incomodar. O cheiro também é agradável: fraco (o que é um elogio) e cítrico.
A embalagem é mais uma coisa que merece elogios: o frasco é opaco e com válvula pump, o que é mais higiênico e evita que os ingredientes da fórmula se oxidem.
Infelizmente o produto causou alergia em mim. Mas isso em nenhum momento desabona a qualidade dele. Alergia é algo que praticamente qualquer coisa pode causar em uma pessoa. Tem gente que não pode comer banana, que é alérgico a essa fruta. Nem por isso banana deixa de ser considerada um excelente alimento (para quem não é alérgico a ela). Acho muito injusto quando alguém diz que um produto é ruim simplesmente porque causou alergia.
A minha opinião final sobre o serum da Dermage é que, ainda que a promessa de atuar sobre o DNA gere muitas dúvidas, ele tem retinol e derivado de vitamina C, significando que o produto pode ser bastante útil. Na verdade, até achei inteligente por parte da Dermage a marca ter feito a promessa de reparar o DNA da pele (o que é incerto), mas sem abandonar ingredientes conhecidos por apresentarem uma boa eficácia.
Conclusão:
Dos três serum citados que prometem atuar no DNA da pele, os mais interessantes são o da Estée Lauder e o da Dermage. Não pela promessa de atuar no DNA, mas porque eles contêm substâncias que realmente podem ser benéficas de um modo geral, além de apresentarem uma textura bastante agradável.
P.s: não recomendo que vocês leiam o meu artigo sem ler os artigos que estão nos links.
Créditos das imagens e fontes:
Shiseido, Estee Lauder, Loreal, Dermage, P&G, The Moodie Report, Mononews, Gran Angular
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